quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Fragmentos de um auto-exílio



Alegria no conta-gotas e esperança num último gole, pra matar de sede o ego da reação. Meu coração, engarrafado, não rende a safra do mais comum dos vinhos. Bem provável que, como disse o poeta, meu coração seja mais um bombom estragado. Mas mais do que isso, solidão reivindica seu domínio ante a solitude desnutrida que se esvai no mais raquítico dos suspiros. Esse amor tem pele seca, rugas e cicatrizes.

     A batida orgânica é perecível e, no mais, perece junto à prece que a paralisia do músculo, já atrofiado, insiste e suplica. E o que me sobra ser além desta falência múltipla dos sentidos sentimentos? O suspiro que se toma antes do último mergulho, a melhora que vem antes da morte.


Mm.
Dec. 03, 2014.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Perene



– Quantos amores
Tive que matar
E quantas vezes
Vou ter que morrer,
Até você decidir
Se ainda quer ficar?

– Maldade seria,
Eu não sei,
Não ter o amor
Nessa flor
Que te dei.

– O céu azul,
Infinito, cai.
Meu sorriso é
Saudade e adeus.
Abraço de quem chega
Silêncio de quem vai.

Maldade seria,
Eu bem sei,
Regar essa flor,
Meu amor,
Q'eu matei.

Mm.
Sep. 28, 2014.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Abrigo


I

Porque esqueço
Do tropeço
Quando desço
Pro começo,

Desapareço
Rumo ao teu endereço.

Do desapego
Quando chego
Em teu sossego
Me aconchego

Logo ofego
Junto a tal chamego.

E o que faço
Com o cansaço?
O mato em laço
No teu abraço

E quero o espaço
Da tua boca: um pedaço.


II

Teus braços descansam meu Eu
Exausto do lirismo e do próprio ser,
Como Sol que repousa seu brilho
Na inundação prateada do luar.

Teu abraço é o mais belo dos poemas

Na calmaria que alcanço em tua paz
Inclino-me a Beleza do poema,
Para repousar, enfim, minha boca
Na curva vermelha dos teus lábios.

E fazer morada no teu sorriso.


Mm.
Jul. 23, 2014.

domingo, 22 de junho de 2014

Ocaso



Uma dose de cada inferno
Para machucar um coração

Cada dose de uma certeza
Firmando a desconstrução

O teu olhar me amedronta
Quando desvio da atenção

E o teu sorriso me quebra
Deixando pedaços no chão.


Não lembro o que fazer quando isso acabar...


É que o toque das tuas mãos
Abre um buraco em meu peito

O teu abraço pode sufocar:
Meu corpo respira imperfeito

Que outra dose de alguma certeza
É o silêncio do que foi desfeito

Mais uma dose de cada inferno
Bebo, me esqueço e rejeito.


Não lembro o que fazer quando isso acabar
Eu vou ficar pra ver o Sol fugir do luar.


Mm.
Jun. 21, 2014.

sábado, 21 de junho de 2014

Azul-final-de-tarde



Tão simples como perder-me no céu azul infinito
É olhar, profundo, no castanho dos teus olhos,
Enquanto eles me invadem corpo e espírito.

Tal brasa do Sol que queima este azul-final-de-tarde
Sinto meu peito rasgado em chamas enquanto, tímido,
Coloco-o junto ao teu rejeitando mero alarde.

Sinto em minha boca a alegria d’um esboço impreciso
Que junto ao olhar da Lua torna-se exato e bonito
Ao encontrar na tua boca o abrigo ao sorriso.

Este coração não me cabe – bate frente ao cansaço –
Mas apazigua ao descobrir-se em sintonia ao teu
No preciso momento em que se dá espaço ao abraço.

Ante o fulgor deste enlace explode sublime o lampejo
E são infindos, como estrelas, carne, osso e coração
Quando entregam de bom grado o desejo ao beijo.


Mm.
Jun. 10, 2014.