sábado, 31 de dezembro de 2011

Câncer extirpado

E para finalizar esse ano, que enfim, por bem, não voltará.


Tem um sistema, mas ele é falho. E por que falha? Por causa de uma simples peça, uma maldita engrenagem, e esta corrompe todo o sistema. Uma máquina. Veja bem, se fosse orgânico, seria um câncer, que apodrece algum órgão vital, falência do corpo, ou então uma maçã estragada e que traz a desgraça para suas irmãs de cesto. Qual seria a medida necessária? Trocar a engrenagem, extirpar o câncer, jogar fora a maçã podre.

A maçã que estraga o cesto sou eu e habito nesse organismo como um câncer, é maligno, mas não visto e, entretanto vem à tona e torna-se temido se ainda habitado e torna-se maldito, porém benquisto fora do organismo deteriorado, bem como a engrenagem que danifica o sistema e que é retirada como uma peça bastante substituível, assim sou eu... Esse sou eu, em carne, osso e coração.

– Jogue a maçã podre fora, ela pode estragar de fato todo o cesto!

Todo o mal que havia em ti ágora já não há, porque eu como câncer – e isso desde o batismo das estrelas e a aura das constelações – e assim sou, fui extirpado. Já não faço mal, não posso fazer mal, a não ser a mim mesmo e só depende de mim. Agora como câncer extirpado, consumirei em mim mesmo toda a maldade que antes fazia a outrem e remoerei todo esse mal pra que eu mesmo sofra tudo o que fiz de mal enfim. E consumirei a mim mesmo, até que não tenha mais o que putrefazer, nesse estado letárgico ao qual me encontro dentro desse quadro patológico vulgar, velho e cansado, de queimar em si, como meu próprio estômago em chamas depois de certos exageros. E consumirei a mim mesmo, de tal forma, até que Tânatos venha me beijar.
Mm. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Ícaro violado


Eu voava, e sonhava
Antes dos adventos dessa era.
Era forte, tinha asas fortes
Pairava por aí, tinha sorte.

Era o que eu pensava.
E o mantinha com toda certeza.

Em seguida percebi
Que não voava sozinho
Tinha alguém, me segurava
Sozinho eu não sonhava.

De repente algo se perdeu
Não havia quem me segurasse.

Em queda livre
Nunca tive o dom das asas
Mas descobri por que voava:
Era um anjo que me levava.

Era o que eu pensava
E o mantinha com toda certeza
Com o tempo algo se perdeu
Não mais havia quem me segurava.

Tornei-me pesado demais
E meu anjo já não tinha forças
Soltou-me. Eu não queria vê-lo cair
Mas fui eu quem o fiz assim, destruí.

Como o Ícaro, violado
Assim o fiz, roubei-lhe as asas
Mas não sei voar sozinho
Caí na floresta de espinhos.

E agora dentre espinhos eu vago
Sem ter alguém por perto
Sozinho, não sei e nem tenho aonde ir,
Sozinho, eu sei que não vou conseguir.
Mm.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Ausências...


Eu queria ser forte
Ter a força que você me pensa
Mas não tenho.
Vejo quem é forte: você!
Mesmo não tendo a força de antes
Eu queria ser forte.

Já chorei por tua ausência
E lamentei pela privação que me foi dada.
Já me sufoquei dia após dia
Por não ter motivos de saber
Quais motivos me levam
A estar sempre em frente a tua ausência.

Eu não tenho duas casas
Apenas uma
De madeira, sem cor e úmida
De cupins está infestada.

E nem mesmo em mim eu caibo
E não sei por onde procurar
Por esse conforto que me escapa
Teu abraço, mais sincero
Aperto de mão mais leal
Dentre tantas primaveras
E até no fim do carnaval.
Mm.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O palhaço


Quanto custa um sorriso
Pra descansar as tristezas
Da vida que carregamos
Em ombros cansados
Para olhares desolados?
Sorriso a tudo transforma
Algo camuflado
Infeliz, desatinado
Em face metálica
Teu rir é estampado.

Naturalmente te forço
Mesmo que isso não queira
Embora, apenas talvez
Também tu não queiras
Fazer de alento
Sorriso amarelado

Comumente me forço
Quando não, sou forçado
Escondo-me em face borrada
Aquilo que não quero mostrar
E que não posso mostrar
E não me deixam mostrar.

Já que não posso fazer
E fazer somente o que quero
Não é fácil de fato esconder
Nossas tristezas
E distribuir sorrisos
Mesmo sorrindo demais
Já não me desespero.

Acostumei-me com isso:
Não viver como quero
Como o rato
A comer o queijo
Como o gato
A devorar o rato
Com um sorriso
Sólido como aço
Já não faço o que eu quero...
Eu, palhaço.

Mm.