domingo, 27 de janeiro de 2013

Armadilha desfeita


Tal o desespero, que aflige aquele que perdeu o ente querido, e a euforia dos vermes que decompõem mais um corpo, morto está o suspiro e o disparar do coração. Todavia, bem como onde há luz também há sombra, onde habita a morte, lá está a vida e, com a putrefação do coração — em toda a sua representação — o cérebro ainda funciona, já que este fenece por último, atingindo uma avidez que em certa medida impressiona.

Pouco a pouco a noção de vida retorna como o despertar preguiçoso de um sono profundo e a sentença escrita se faz presente. Seria possível viver sem coração? Isto, aqui, não cabe. E ao despertar de um sono profundo que beirou a morte, através de eloqüentes viagens por quantos e tantos paraísos oníricos, cá está o senso, o bom.

Quanto ao coração? Este é apenas uma bomba, que bombeia e explode, e que também está a mercê do desarme, como aqui, entre reflexões, eu o encontro, desarmado. Armadilha desfeita, pronto, qualquer paixão me diverte.

Mm.
Manaus, Jan. 13, 2013.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Ano novo... vida nova


            Antes de tudo, vale ressaltar que, um dia todos nós feneceremos assim como a flor arrancada por amor, como a lágrima que exala torpor. O tempo é implacável. Egoísmo seria querer viver para sempre? Egoísta como bom filho único que sou, tenho minhas dúvidas ainda, entretanto, jamais aspirei à divindade do infinito; jamais tomei o bálsamo como perfume que me tornasse intocável a ação do tempo. É bem verdade que gostaria que certas pessoas vivessem um pouco mais – e com o passar do tempo podemos pensar nisso – como posso dizer de Hobsbawm, Tolkien, Borges, e daqui pra frente o próprio Proust (existem coisas que seduzem a primeira vista e que se tornam deslumbrantes com o passar de algumas páginas). Grandes produções, grandes deleites. Eles se foram. Todos nós iremos, e fico convencido de que certas pessoas parecem ignorar tal sentença. Nada detém a inexorável marcha do tempo.

            Você não pode transgredir a lei moral de deus sem que alguém pague o preço. Bem, tenho a consciência limpa de que eu pago o que eu consumo. Fumo? Sim. Bebo? Também. Transo? Assim como qualquer ser humano. Esperar é uma questão de tempo e cada um tem o seu próprio, ou pelo menos o faz. A lentidão do processo de alguns não dá o direito, que alguns insistem em querer ter, de me discriminarem a partilhar de tal calmaria.

            Pessoas almejam o bem, umas das outras, dentro de uma relação afetiva de qualquer natureza, eu sei, e estou bem. Todavia, existem inúmeras coisas nocivas a vida do homem e da mesma forma são feitas a vontade, adoecendo, matando. Então me pergunto: O que é um cigarro? O que é uma dose de uísque? Isso não é apologia, é opinião.

            Jamais desejei vaga em qualquer altar. Isto é lugar pra “santo”, e pra mim, é pouco! Essas imagens quebram ao cair, são pífias. Essas representações também desmancham no ar. Isso me torna menos humano? Creio que não. Então para que esses olhos de loucura? Sempre as mesmas desculpas. “Ah, ele é muito gordo, tem que se cuidar senão não vai ter ninguém!”; “Ah, ele fuma demais, tem que se cuidar senão não vai ter ninguém!”; “Ah, ele tem barba demais, tem que se cuidar senão não vai ter ninguém!”; “Ah, ele tem cara de chapado, tem que se cuidar senão não vai ter ninguém!”; “Ah, ele é debochado demais, tem que se cuidar senão não vai ter ninguém!”; “Ah, ele é marginal, tem que se cuidar senão não vai ter ninguém!”. Ora, pois, quem inventou que ter alguém ao lado é atestado de bom estado de espírito e/ou felicidade? Mania de auto-afirmação!

            A propósito, marginal? Claro! E isso me soa como elogio. Com tantas desculpas estúpidas me marginalizando, eu como adoro dar motivos para que os outros falem, fiz questão de estar à margem do processo medíocre no qual vejo inúmeras pessoas se atropelando para participar. Foi legitimado. Eu não peço aceitação de ninguém, apenas entendimento, principalmente do processo histórico, da construção do sujeito histórico enquanto indivíduo. É simples, e alguns muito próximos sabem de tal simplicidade (ou deveriam saber).

            Quer me tomar como objeto de estudo? Ah, claro que pode desde que entenda pelo menos a relação sujeito/objeto e como a tal relação se constrói. Há quem pense que estou sozinho, e eu proclamo que não, não estou. Enganam-se perfeitamente os que pensam que não estamos bem encaminhados.

              Ninguém vai me dizer o que sentir, e digo e repito: eu amo quem eu quiser!

            Um dia todo mundo morre. E eu? Ah, eu vou parar de fumar, de beber, de foder, de sorrir, de viver, afinal um dia todo mundo vai morrer mesmo. Mas tal sentença não requer pânico porque o funeral deste que vos fala está marcado para amanhã de manhã. Ano novo... Vida nova!

Mm.
Manaus, Jan. 1, 2013.