Existem coisas, meu bem, que não podem ser
desfeitas. O meu amor, que outrora foi todo seu, e que era nosso, levei às
últimas conseqüências. Devastador, acima de tudo. Para o bem ou para o mal, ele
foi devastador. É essa a maneira que aprecio. Nós inventamos e reinventamos
esse tal amor, da maneira como nos coube, da forma como o amor é e está: para
ser inventado. Como sempre digo, com a força da minha existência, é estrago que
eu gosto, e, incansavelmente foi isso o que tivemos, mesmo que supostamente não
fosse isso o que procurávamos. Estrago, essa é a palavra, essa foi a
circunstância. Tudo se estragou.
Em mim não cabe arrependimento. A velha
sensação de culpa, de tão senil, faleceu, e levou consigo a memória ao
esquecimento. Notei que sobrevivi, quando pensei estar no inferno. Lembro-me do
seu lindo sorriso e percebo que o meu sorriso é muito mais lindo, meu bem. A
sustentação de um semblante letárgico foi banhada com as mais puras lágrimas
que, carregadas de uma dual relação que aparentava deus e o diabo, lavaram-me
carne, osso e coração.
O meu amor me partiu em mil pedaços e,
ainda por cima, me fiz em dez mil cores pra você perceber e não te magoar. A
carapaça deste caranguejo é forte: filtrou a mágoa, absorveu o dégradé de dez
mil cores, restituiu fragmentos feitos em mil pedaços. O que restou? O meu
sorriso mais sincero. Não lhe quero mal, meu amor, apenas não quero mais.
Aceito a conveniência, se assim eu quiser. Ninguém pode me dizer o que sentir!
O que me restou de memória foi seu perfume,
mas recordo-me bem do teu cheiro: doença. O odor da tua pele me cheira a
doença. (Talvez tenha conjugado erroneamente o verbo, afinal não sinto mais
cheiro algum que não seja o meu). Sua bagunça permaneceu por muito tempo dentro
deste quarto, que há muito não via nada vivo, até que um sorriso apareceu. O
teu suor, que por muito impregnou em pele e pêlos meus, hoje e há tempos já
secou.
O teu perfume eu tirei com incenso. Acendi,
queimei. Cheiro de novos ares e luz pra cabeça; Tua bagunça eu arrumei com
cautela. O que antes era teu, hoje não ocupa o menor espaço. Mudei tudo de
lugar, e se antes era pra ti familiar hoje não lhe é conhecido, assim como as
certezas que carrego; Teu suor eu sequei com minha própria boca e lavei-me com
um simples escarro. (Assim como tu, a exemplo do meu querido Augusto, escarrou
na boca que te beijou).
Meu amor, com você eu fui ao fundo do poço
e levei tudo o que era nosso. Foi assim que eu entendi o que se faz ao chegar
lá. Foi assim que eu descobri o que tem lá: um porão. Lá eu abri o alçapão e te
deixei junto o que era nosso. Dá chave, me esqueci, e subi com tudo o que é
meu. Com meu sorriso incólume.
Mm.
Manaus,
Apr. 13, 2013.

